quarta-feira, 16 de abril de 2008

Saudade (cont.)

Arrepiava-me a cada toque, a cada olhar, a cada palavra e sorriso trocado. Ouvia-te atentamente. Não conseguia desviar de ti o meu olhar, queria reter tudo o que me dizias e explicavas. É verdade, cresci, aprendi e vivi contigo.
Se algum dia fui ingrata contigo meu amor, não foi algo sincero mas sim momentâneo. Sim, chamei-te de “meu amor”, tu foste, és e serás sempre o meu amor.
Gostava da nossa ternura, do nosso embalo, do nosso destino.
Um dia a olhar para a lua, disse-te que o nosso momento era aquele e ali. Ninguém nos iria separar até porque quem tem uma ligação forte como a nossa fica sempre ligado nem que seja por fortes recordações.
Nunca ninguém soube os nossos segredos e as nossas palavras trocadas bem baixinho. Ninguém percebe o significado dos nossos olhares e sorrisos, ninguém os conhece e classifica como tu.
Ninguém me decifrava como tu.
Não vou mentir meu amor, vou sentir a tua falta.
Foste algo que marcou e incentivou o meu ar, o meu respirar.
Desenhei sempre contigo a minha alma, sonhei sempre até te encontrar.
Encontrei. Foste.
A maneira como enxugavas as minhas lágrimas quando tinha uma recaída. A maneira como conseguias tocar o meu coração.
Acho que agora já não há um amor assim. Já não há café nem chá igual ao da tua mãe. Já não há recordações tão fortes, nem marcas tão profundas. As lágrimas sinceras, as lágrimas de perda. Aquelas que faziam o chão ficar cada vez mais fundo e o passado muito mais saudoso. Aquelas que sufocavam e faziam sentir um aperto tão grande no coração e nos arrepiavam.
Sabes amor, o mundo agora parece que não vai acabar. Quando algo termina, o futuro está logo aos nossos pés. Tudo é muito mais rápido, talvez também sem sentido. Esquecem-se as memórias, as marcas, as recordações e o amor. Agora o amor não existe, agora há amores. Já não se ama só uma pessoa nesta vida, agora vão-se amando.
A palavra amor. Aquela que para se dizer, o coração tinha que dilatar, bater cada vez com mais força, muito trémulo e ao mesmo tempo muito pequeno. Era até difícil de se dizer, havia sempre dúvidas. Não se sabia se era o momento certo, a hora certa e a pessoa certa.
Só havia um outro coração digno do nosso “amo-te”.
Não gosto desta banalização. A palavra amor tem de ser guardada, cuidada e resguardada até acharmos que chegamos ao coração certo e ao momento de dar todo o nosso amor.
Lembro-me que só te disse que te amava quando o ouvi de ti. Soa bem. Enche-nos. Dá-nos uma energia e uma euforia...não se come, não se fala, anda-se nas nuvens e sorrimos até para as plantas.
Acho que o Gordon quando nos via ainda ficava mais rechonchudo e ronronava mesmo sem mimos. O nosso amor era sentido até pelo gato da tua mãe. Ela sempre disse que até na nossa pele se via a nossa ligação.
Conforto. Sempre gostei disso na tua mãe.
Tinha sempre uma palavra mágica, um sorriso quente.
Memórias. Duras...
Amo-te.
Não me censures por o estar a dizer directamente. É a mais pura verdade.
É difícil esquecer quem me fez tão feliz com um único olhar.
É difícil esquecer quem me fez sentir tão amada e quem eu amei sem limites.
O amor permanece.
Aquece-me em dias chuvosos. Envolve-me numa ternura imensa. Aconchega todos os meus medos. E ainda hoje me faz feliz.
Acho que já ninguém ama como nos amamos um dia querido.

domingo, 9 de março de 2008

Saudade (cont.)

Um dia disseste que precisavas de sair dali, abafava-te.
Não levei a peito o que disseste. Mas só agora é que reparo que a partir daí começaste a chegar mais tarde que as seis horas e vinhas com um ar apático e aborrecido.
De dia para dia o teu sorriso parecia mais pequeno e menos dócil.
O encanto foi esmorecendo.
O coração começou a apertar.
Partiste. Foste em direcção à luz.
E eu, fiquei à espera.
Qual Penélope que esperou vinte anos sentada pelo seu Ulisses.
Ela tinha a sua colcha em tricot, que fazia de dia e desfazia de noite, era o seu refúgio e passatempo, talvez assim se distraísse e o tempo passasse mais rápido.
Eu tinha as lágrimas. Aguentava de dia para chorar à noite.
Deitava-me cedo. Não olhava para a janela que me fazia lembrar de tudo, evitava-a a todo o custo. Acho que era aí que o pano caía e eu atirava tudo o que sentia, toda a revolta e toda a tristeza para as paredes do quarto que tanto ouviram, viram e sentiram.
Revistei, vasculhei, virei do avesso a caixa do nosso amor para ver se tinha feito algo de errado. Nada, não encontrava qualquer indício para tal reviravolta.
O meu coração era um autêntico ponto de interrogação e todos os meus pensamentos eram questões retóricas.
Sentia falta do teu cheiro, do teu jeito de sorrir, do teu toque, do teu calor, da tua palavra amiga, do teu coração, da tua mão. Do teu amor.
Foste embora sem deixar carta, bilhete, um adeus ou um simples “tchau”.
Foste. Simplesmente, foste.
As seis horas perderam o encanto. O chá da tua mãe não conseguia curar a ferida que deixaste no meu coração. As palavras voavam na minha imaginação. A tua mãe era a única pessoa que me confortava por instantes, mais ninguém o conseguia fazer.
Sofri.
Sofri qual Penélope. Ulisses saiu para a guerra. Tu, saíste à conquista de um mundo que eu dizia inexistente.
Deixaste um mar de sonhos, um longo sorriso e um belo amor para trás. Correste em busca de algo desconhecido. Qual Peter Pan em busca da sua Terra do Nunca.
Foste meu amigo. Meu amor. Meu companheiro. Meu coração.
Gastei todas as palavras contigo. Tinha para contigo a linguagem mais dócil que conheço. Queria-te do meu lado só para te poder admirar.
Gostava de agarrar todos os teus sentidos. Respirar o teu ar.
Corri atrás de ti. Acompanhei-te, ou tentei. Sugeri que ficasses preso em mim. Gritei, sacudi e caí no tédio de um amor que acabou da pior maneira.
Fugiste de ti, ou talvez de mim, dos problemas, da rotina ou da vida?

Penso que foi a primeira vez que senti que não tinha tecto nem chão. Sonhava mais alto do que podia, acompanhava-te na tua busca desconhecida, imaginava-te em todo o lado. O chão saiu. Fugiu de mim qual meu amor.
A vida, o mundo desmoronaram.
E graças a ti, a nós, ao que fomos, ao que somos, ao que poderíamos ter sido, aos sonhos, aos sorrisos e à partilha que hoje tenho, escrevo e lembro a nossa história.
Escrevemos e editamos a nossa história meu amor.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Saudade (cont.)

Encontrei algo no teu olhar que nunca pensei encontrar. Encontrei força e vontade de voar.
Costumava chamar-te de “meu anjo”, tu sorrias e mimavas-me. O teu sorriso doce fazia-me tremer, sempre que o apreciava em demasia, tinha receio de o perder.
O vento trazia um pouco da aragem da cidade, não gostava! Contaminava o nosso ar puro e leve. Naquele tempo, respirar era um prazer. Agora, respirar serve somente para sobreviver.
Como tudo era mais fácil, como tudo era mais simples e (talvez) banal.
Um dia escreves-te um bilhete que ainda está guardado na nossa caixa, dizia: “Se em algum momento me esquecer de ti...perdi o coração!”. Está no meio de todas as palavras carinhosas, gestos e olhares cúmplices. Ali, temos o nosso amor. Guardado numa caixa, qual bugiganga, como se fosse algo material e inutilizado.
Sempre te vi como algo meu, algo possuído por o meu coração.
Reconhecer que erramos, ver que as ilusões e expectativas caíram por terra, dói.
Aquelas fotos que temos, a preto e branco...transmitiam tanta paz. Eu usava aqueles vestidos compridos, naquela altura não era de bom grado uma mulher usar calças. Era tudo tão agradavelmente tradicional.
Ficava horas a fio à tua espera. O vento era forte, levava-me os cabelos. Eles esvoaçavam de uma maneira selvagem e suave ao mesmo tempo. Tinha horas em que não conseguia estar no alpendre a tricotar com a tua mãe ou a ler ou então a fazer alguma camisola para o Inverno frio que se avizinhava. Nessa altura era bom estender a roupa, vi-a o seu balançar e tinha uma sensação de liberdade, sentia-me cada vez mais eu e cada vez mais leve.
Quando nos chateávamos gostava da maneira como me puxavas e me abraçavas logo a seguir das últimas palavras e gestos mal explicados. A tua mão na minha fazia-me sentir forte e capaz de abraçar todo o mundo. Aquecia todos os lugares frios que tivesse dentro de mim.
As tuas palavras reconfortavam qualquer sorriso. Era nestas alturas que sentia uma fusão tão grande que mesmo se nos perdessemos um do outro numa multidão, nos iríamos encontrar. O nosso coração e intuição funcionaria qual GPS.
Mas aquela imagem que está retida. Aquela última tentativa para uma foto decente, mãos dadas, concentrados na nossa ligação talvez, em pé e com as costas direitas... Parecíamos frios, distantes. Mas foi a foto que ficou e que guardo até hoje na caixa do nosso amor que tanto prezo.
E quando olhávamos o pôr-do-sol? Sentia-me criança nos teus braços, explicavas tudo o que perguntava. Gostava quando nos sentávamos no tronco em frente ao lago, apreciava cada instante, cada movimento, tinha medo de perder um pouco de beleza que o lago nos transmitia.
Lembras-te do gancho que me ofereces-te para o cabelo? Tinha uma flor linda, grande e era da cor do nosso amor, tal como afirmas-te quando ma deste. Foi no dia em que a tua mãe ficou a saber da nossa eterna ligação. Conhecia-a desde criança, mas naquele momento o sofá de tua casa ficou enorme e a tua mão não aquecia a minha. A tua mãe ouvia atentamente acenando com a cabeça num belo sim que me fez sorrir com toda a vontade de todo o mundo. Abraçou-me e disse-me que fazia parte da família a partir daquele momento. Senti-me especial e totalmente deliciada com as palavras da tua mãe. Eram de um carinho imenso e de um sinceridade que nunca mais ouvi nem senti de ninguém. A tua mãe sabia tocar qualquer coração.
Hoje ouvi falar em paz e em sorrisos, e tu tinhas um sorriso lindo que me transmitia paz. Quando sorrias o mundo ficava melhor, a paisagem brilhava e a melodia entrava. Sentia um arrepio e um prazer enorme por o poder ter só para mim.
Sinto-me lisonjeada por ter sido a escolhida por este belo amor. E agora triste, por este ter terminado de uma forma tão bela e ingénua ao mesmo tempo.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Perfeição

Cenário perfeito aquele que vou pintar.
Luz, câmara, acção!

Quero flores e aromas, quero lilás e branco nas paredes.
Quero alfazemas e almofadas com cheiro a alecrim.
Corações ao alto e girassóis no tecto.
Sorrisos cor-de-rosa e vontade a vermelho.
Música ambiente e cenário amplo.
Quero umas asas para poder voar.
Abraços e beijinhos.
Rocas e bailarinas.
Quero chupetas e babetes.
Quero um olhar no bom caminho e um trevo ao peito.
Palavras ditas bem baixinho e um berço.
Quero ser embalada com tamanho carinho inspirado.
Ternura no toque e aconchego no coração.
Quero mil e um tons nas mãos.
Quero diferença em toda a igualdade.
Segredos desvendados e tempo parado.
Quero todo o meu coração repleto de amor.
Chorar baixinho de alegria e sentir calor.
Quero um sorriso grande e o mais inspirador possível.
Bondade, humildade e amor respiráveis.
Sentir, cheirar, tocar e abraçar o carinho.
Reter a alegria e prolongar a paz.
Quero algo maravilhoso, tão maravilhoso qual história encantada.
Quero um conto de fadas que me faça sonhar...

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Saudade (cont.)

Sabes o que tenho retido nos meus pensamentos (ou mente, ou coração)? Aquelas casas todas em madeira, com janelas enormes que nos mostravam o mundo tal como queríamos, aquelas portas pesadas e altas que do lado de lá nos presenteavam sempre com o cheiro caloroso a lareira com um toque especial a aroma familiar. Era bom, fazia-me sonhar e inspirar cada melodia daqueles aromas como se fossem essências.
E o cheiro a alecrim e a alfazema, lembras-te? Ao correr pelos campos, a passear, o cheiro era já intrínseco, escorregava e alojava-se na nossa pele, era algo que já fazia parte do nosso ser. O ar era puro, tal como o nosso amor.
Gostava de acordar contigo a meu lado, os teus olhos e os meus fundiam-se e o aroma amaciava todas as palavras ditas ou meramente pensadas.
A casa da tua mãe era uma alma quente. Sempre que lá entrava sentia-me novamente criança, com um sorriso repleto de amor, paz, ternura e sonhos feitos de nuvens de algodão e um sol aconchegante e reconfortante. Sentia-me bem, sempre me senti. Saboreava cada palavra, cada expressão que a tua mãe fazia. Era tão dócil, tinha uma sabedoria imensa, e sempre que me vinha embora saía com o coração repleto de calor. O chá da tua mãe não fazia só bem a uma simples gripe mas também à alma, regava-a de esperança e cor. “Faz milagres”. E fazia!
Gosto de me sentir criança, com todo o amor do mundo para dar e receber, algo tão frágil. Dizias que gostavas do meu sorriso terno. Pois para além deste tinha mais, pelo que dizias. Conhecias-me até pelos sorrisos, tinhas um significado para cada um, sabias tudo o que se passava por dentro. Conhecias o meu coração. O meu olhar era o detentor dos meus pensamentos e do meu coração, através dele detectavas tudo, adivinhavas o que sentia e pensava, falavas até em telepatia.
Quando queremos, tornamos a vida bela e harmoniosa. Através de sonhos e esperança.